Terra Magazine

20 de janeiro de 2009

As três críticas de Obama a Bush

Tags:, , - possedeobama às 21:45
Ignacio Rodríguez Reyna
Direto de Washington DC (EUA)
Barack Obama não deixou de fora crticas a Bush
Barack Obama não deixou de fora críticas a Bush

A cerimônia de posse do novo presidente americano foi e volta a ser vista por todo o mundo na internet, jornais, rádio e televisão. Talvez seja a hora de começar a ver a fundo as palavras de Obama no dia em que fez o juramento como o presidente número 44 dos Estados Unidos.

No discurso, Obama fez três críticas, sem mencionar o nome de George W. Bush, que recebeu vaias de uma parte dos espectadores - “Na, na, na, hey, hey, bye, bye”, cantavam em coros improvisados ante a figura do texano.

1) Censurou a oposição de Bush à pesquisa com células-tronco que levem à cura de doenças para as quais não existe tratamento. “Vamos colocar a ciência no lugar que deve ocupar e usar as maravilhas da tecnologia para aumentar a qualidade do atendimento médico”.
 
2) Fez uma crítica às posições ideológicas de Bush em matéria econômica: “A pergunta que fazemos hoje não é se nosso governo é grande demais ou pequeno demais, mas se ele funciona”. E, tampouco, disse, se trata de perguntar se o mercado é uma força que busca o bem ou mal, pois seu poder para gerar riqueza é inigualável. “Esta crise nos lembrou de que sem um olhar vigilante o mercado pode sair do controle - e que uma nação não pode prosperar por muito tempo quando favorece apenas os prósperos”.
 
3) Expressou sua desaprovação à política de George W. Bush de violação dos direitos humanos com o pretexto de que cuidava da segurança nacional. De fato, rechaçou a prática de torturar prisioneiros que estão na base de Guantánamo, em Cuba; questionou inclusive a existência dessa prisão, em que estão prisioneiros sem nenhuma juízo legal, e a prática de espionar os cidadãos do país sem ordem judicial.

Fez as críticas com moderação e certa elegância. Sem dúvida.

Quanto à inspiração, a poesia, os sonhos e a celebração… Guardou-os. Sem misericórdia.

Para a surpresa de muitos, Obama, este homem nascido de pai africano e mãe norte-americana, deixou guardada sua eloqüência, com a ausência da “poesia” de seus discursos mais cativantes e convincentes. Talvez tenha sido obra de sua ex-rival e hoje subordinada Hillary Clinton,  quando o recriminou dizendo que “com poesia não se governava”.
 
Nesta ocasião, não houve nada que lembrou sequer de longe o mais famoso discurso de Martin Luther King, o pastor e ativista dos direitos civis dos negros que foi assassinado há quase 40 anos: “I have a dream”, que em outras ocasiões inspirou Obama.

Blogs que citam este Post

19 de janeiro de 2009

Exclusivo: Obama promete a latinos reforma de imigração em um ano

Tags:, , , - possedeobama às 11:41

Ignacio Rodríguez Reyna
Direto de Washington DC (EUA)

Eliseo Medina fala de compromisso de Obama

Eliseo Medina fala de compromisso de Obama

Não em uma, mas em pelo menos três ocasiões diferentes Eliseo Medina escutou da boca do próprio Barack Obama o comprometimento de realizar uma reforma migratória nos Estados Unidos que resolva os problemas enfrentados por entre 12 e 14 milhões de trabalhadores de todas as nacionalidades que estão sem papéis para trabalhar legalmente naquele país.

Eliseo Medina é vice-presidente executivo da Service Employees Internacional Union (SEIU), considerada uma das organizações sindicais com maior crescimento no Canadá, Estados Unidos e Porto Rico, e com afinidades junto ao partido democrata.

Leia mais:
» NYT: Obama tenta aproximação com McCain após eleição
» Lula: Obama deve mudar relação dos EUA com América Latina

“Sim, em três reuniões diferentes ele falou isso. Obama comprometeu-se a abordar o assunto da reforma migratória em seu primeiro ano de governo. Não nos disse que seria nos primeiros 100 dias, mas sim no primeiro ano. Acho que no terceiro trimestre do ano começará a tratar o assunto”, explica Eliseo Medina em conversa com o Terra Magazine nos escritórios da SEIU em Washington.

Além do mais, disse o líder da SEIU, que já agrupa mais de um milhão e cem mil trabalhadores das áreas da saúde, limpeza, hotelaria, funcionalismo público e outros, Obama mencionou que é contra as batidas que têm acontecido nos últimos tempos por todo o território dos Estados Unidos.

Filho de camponeses mexicanos que migraram para a Califórnia, Eliseo Medina nasceu no estado mexicano de Zacatecas, mas com 10 anos chegou aos Estados Unidos e um pouco mais tarde foi trabalhar na colheita da uva na cidade de Delano, onde foi criado o movimento de trabalhadores agrícolas encabeçado por César Chávez, de quem foi discípulo como organizador.

“Conversamos com Barack Obama durante a campanha. A primeira vez foi uma conferência telefônica com representantes de organizações pró-imigrantes. Disse-nos que as batidas não eram a solução e que buscaria uma maneira de resolver o problema.”

- Garantiu a vocês que as suspenderia?
- Nos disse que essa não era a solução e que buscaria uma maneira de ajudar.

Na segunda conferência telefônica Obama conversou com um grupo de locutores de rádio latinos em nível nacional, “a discussão foi a mesma e deu as mesmas respostas.”

A terceira ocasião em que conversaram com ele foi quando se reuniram as três maiores redes de evangélicos latinos no país. “Eles lhe expuseram que a comunidade sem documentos está passando por maus pedaços e que a maioria dos seus fiéis não tem documentos”, conta Eliseo.

Diz, também, que na campanha de Obama, na qual o sindicato participou de maneira relevante a favor do democrata, conversou pessoalmente com ele, e essas conversas continuaram com a equipe de transição.

– E se for apenas uma promessa de campanha?
– A gente nunca pode descartar as coisas, mas eu sou um organizador e ele também o foi, por isto ele entende que este é um processo e que não vamos ficar de braços cruzados. Isto é apenas o começo. Daqui para frente temos que seguir empurrando e pressionando para que as coisas sejam feitas. A verdade é que a sua chegada à Presidência dos Estados Unidos traz uma grande esperança. É uma mudança histórica. O fato de uma pessoa que não é branca estar no poder é incrível neste país.

E Eliseo cita coisas concretas que Obama pode fazer sem que seja necessário que o Congresso as aprove. Apenas é preciso que ele as ordene.

Por exemplo, poderia ordenar suspender as batidas que os agentes do Departamento de Segurança Interna e da Imigração e Aduanas realizaram em locais de trabalho, lares, escolas e locais de contratação de mão-de-obra todos os dias.

“Ele me disse que sabia perfeitamente que as batidas, nas quais são presos de 400 a 500 imigrantes, não resolvem o problema e que, além do mais, não concordava em separar as famílias com as deportações.”

Além disso, disse Eliseo, está em suas mãos cancelar o envio das cartas no-match (irregularidades de concordância na identidade de imigrantes) a empregadores, e a prisão, deportação ou chantagem de imigrantes ilegais para que estes se declarem culpados.

O que é bom, considera este organizador que chegou à sua posição atual depois de comandar seções locais do sindicato na Califórnia, é que “estamos em uma posição melhor do que antes por um único motivo: nós dizíamos que tínhamos ‘o voto latino, o voto latino’. Já nos chamavam de loucos. ‘Em cada eleição dizem a mesma coisa, que o gigante já vai acordar, mas ainda dorme profundamente’, debochavam de nós.”

“Enquanto não tivermos força política, digamos o que digamos, não importa o quão justa for a nossa causa, não conseguiremos as mudanças. E a diferença agora é que tivemos um grande impacto na eleição de novembro.

Há um fator adicional para pensar que Obama pensará duas vezes antes de desdenhar dos compromissos com a comunidade de imigrantes: o maior número de menores de idade nos Estados Unidos é latino. A cada ano, aumentam os números de latinos que chegam à maioridade. “O futuro deste país está em sua demografia e isso está mudando.”

Nós, diz Eliseo Medina, dissemos a Obama e à sua equipe: “este voto foi contra os republicanos, não necessariamente pelos democratas, e se vocês querem ganhar esse voto no futuro precisam agir hoje, que têm a oportunidade, sobre os temas que interessam à comunidade. Já viram o que aconteceu quando colocaram em prática estratégias anti-imigrantes. Se quiserem seguir por esse lado, estarão condenados a ser uma minoria permanente.”

- E se Obama os trair?
- Não acredito que nos traia, mas por via das dúvidas vamos continuar nos organizando e nos mobilizando. Fomos muito claros com ele. O importante é que colocamos nossas questões em pauta. A beleza da democracia é que sempre há eleições. E aqueles que elegemos também podemos “deseleger”. Mas acredito que o novo presidente é um homem de palavra. Veremos.

Blogs que citam este Post

18 de janeiro de 2009

Festa para Obama tem shows, história e chavões

Tags:, , , , - possedeobama às 23:38


Antonio Prada e Bob Fernandes

Direto de Washington (EUA)

Multidão para Obama em Washington (Foto Reuters)

Multidão para Obama em Washington (Foto Reuters)

Sob três graus abaixo de zero e em pé por 4 horas, centenas de milhares de seguidores. Duas dezenas de microshows e discursos. O primeiro evento público para a posse de Obama em Washington, We Are One: Opening Inaugural Celebration, embalado por chavões patrióticos e citações históricas, seguiu sempre a mesma intenção e roteiro: pregar união e o renascimento dos Estados Unidos, que vive a maior crise desde o crash em 1929.

Convocados na história para emoldurar Barack Obama nos telões espalhados ao longo do retângulo que une o Lincoln Memorial ao Capitólio, surgiram os ex-presidentes George Washington, Abraham Lincoln, Franklin Roosevelt e John F. Kennedy. Com um mesmo discurso, a grandeza e a união da “América”.

Leia também:
» Galeria de fotos: show realizado em Washington
» Vídeo: Obama relembra sacrifício dos heróis do passado

 
O líder da luta dos negros pelos direitos civis Martin Luther King, que se vivo faria aniversário nesta segunda-feira, foi citação recorrente ao longo de toda a cerimônia.

No show que a HBO comprou os direitos com exclusividade por US$ 2,5 milhões, o roteiro para a constelação de artistas foi igualmente protocolar e embalado pelo tom nacionalista e politicamente correto. Bruce Sprinsgteen, Denzel Washington, Bono Vox e U2, James Taylor, Shakira, Aretha Franklin, Stevie Wonder, Tom Hanks, entre outros, emprestaram a fama e suas histórias para costurar o enredo. 

Atilada observadora constatou ao final:
- Emocionante do ponto de vista histórico, grandioso, mas também uma espécie de vigilantes do peso da pátria.

pela união da nação (Foto AP)

Obama: pela união da nação (Foto AP)

 

 

A maior estrela da tarde, Barack Obama, quase ao final da cerimônia trilhou o mesmo caminho dos artistas e cantores, sempre escorados pelo teleprompter. Num discurso morno, o presidente eleito oscilou, em suas citações, entre a força e grandeza da “América”, e a extraordinária fragilidade econômica que vive os Estados Unidos nos dias de sua posse.

Disse:

- Não há dúvidas de que a estrada será longa, que a escalada será íngreme, mas não vamos nos esquecer que o caráter da nação aparece não nas horas de conforto, mas nos momentos difíceis.

- Eu peço que vocês me ajudem a resgatar esse caráter - o mesmo dos nossos fundadores - de volta ao nosso país.

- Se conseguirmos reconhecer uns aos outros e nos unir, não somente recuperaremos a esperança, mas também, talvez, melhoraremos nosso país.

- Não vou fingir que será fácil combater cada um destes desafios. Pode demorar mais de um mês ou de um ano, provavelmente muitos. Ao longo do caminho haverá passos em falso.

- No curso da nossa história, apenas poucas gerações foram confrontadas com desafios tão sérios como os que temos pela frente. Nossa nação está em guerra. Nossa economia está em crise

- O que me dá esperança são vocês.

Não por acaso, do lendário presidente, na imaginação popular, John F. Kennedy, a frase pinçada para um dos videoclipes exibido nos telões:

- Não pergunte o que o seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer pelo seu país.

A multidão, paciente e capturada pelo momento, protegida por milhares de policiais e cercada por um cordão de banheiros químicos (7 mil estão montados na cidade para a semana da posse), só vibrou com a performance do veterano cantor e compositor country Garth Brooks. A multidão e Barack Obama que, junto com a mulher e os filhos, balançou-se na cadeira ao som de Brooks.

O presidente eleito, tendo ao lado o vice Joe Biden, permaneceu a maior parte do tempo sentado aos pés da escadaria do Lincoln Memorial. Uma das raras vezes em que se levantou foi para aplaudir Usher, Stevie Wonder e Shakira, que interpretaram o clássico “Higher Ground”, de 1963.

Apenas um cantor se dirigiu diretamente a Obama, Bono Vox, que agradeceu ao presidente eleito por incluir a música “City of Blinding Lights” nos temas de sua campanha. “É uma emoção para quatro rapazes irlandeses”, disse, antes de executar a música.

Fim do espetáculo. E a multidão, ordeira, deixou a pé o imenso gramado retangular conhecido como Mall. Bandeiras e chapéus com as cores dos EUA, aqui e ali cartazes a pedir “Arrest Bush” (Prenda Bush), e a história registrada em câmeras e celulares. Nesta segunda, em dezenas de festas de comunidades latinas, africanas, gays, lésbicas, brancos, negros, universitários, escoteiros, freaks, um mosaico da “América” que ungiu Obama com a esperança de se reerguer.
 

Agradecimento ao presidente (Foto AFP)
Bono: Agradecimento ao presidente (Foto AFP)

 

 

 

 

  

 

 

 

Blogs que citam este Post

Brancos, negros, vencedores, perdedores… atrás do trem de Obama

Tags:, , , , - possedeobama às 8:04

Bob Fernandes
Direto de Washington DC (EUA)

O Trem 2207, no roteiro na posse (Foto Bob Fernandes/Terra Magazine)

O Trem 2207, no roteiro na posse

K. Skibicki é cobrador, perfurador de bilhetes na Business Class do trem Nova York-Washington das 10 da manhã do sábado. No trem imediatamente à frente, a partir da Filadélfia seguem o presidente eleito Barack Obama e comitiva.
 
Numa viagem de 217 km até a capital, em Wilmington, Delaware, a primeira parada. Para o embarque do vice-presidente Joe Biden e família. Rumo a Washington e à posse.
 
Posse marcada por 4 dias de festas, festas para todos os gostos, algo sem precedentes na história das inaugurations dos 43 antecessores de Obama.
 
A caminho e no interior da Business Class, rastros do DNA, do jeitão norte-americano.
 
É Business Class, mas salve-se quem puder para arranjar uma poltrona em meia dúzia de vagões. Assim, a largada já define quem será vencedor, winner, e quem, das mais graves ofensas possíveis, é loser. Perdedor.
 
Posse disputada a tapa. Mesmo a Business, US$ 221 por cabeça, está abarrotada pelos próximos 3 dias. No trem 2207 não há bagageiro para tanta mala.

Business Class? (Foto Bob Fernandes/Terra Magazine)

Business Class?

Negra, cabelos alisados, calça jeans e blusa lilás de lã, casaco cinza, óculos escuros e gorro branco, Bisila Bokoko, ali pelos 30 anos, arrasta a mala até a poltrona no estreito corredor.
 
Enorme a Sansonite cinza. Bisila espreme-a entre os joelhos e o banco dianteiro.
 
Branco, por volta dos 50, reluzentes olhos azuis que contrastam com terno e quepe azul-marinho, K. Skibicki segura o bilhete de Bisila. Ela, mergulhada na edição especial da Life sobre Barack Obama.
 
K. Skibicki encosta o cotovelo na poltrona, leva a mão direita à pala do quepe, consegue a atenção de Bisila. E fuzila:
- Essa mala não pode ficar aqui. Acho que a senhora sabe disso, não? Leve-a daqui, já!
 
Passageiros simulam não acompanhar o monólogo de K. Skibicki. Silêncio ao redor da cena. Silêncio, aliás, obrigatório.
 
Do teto do vagão pende o aviso “Carro de Silêncio, evite falar alto ou usar celular neste vagão”, e Skibicki, o perfurador, logo à saída de Nova Yok tomara o microfone para o aviso:
- Nesse carro não se pode fazer negócios, conversar ou usar o telefone…
 
E agora S. Skibicki observa Bisila arrastar a mala em busca de um espaço que já não há no bagageiro. A mala é deixada à entrada do vagão, no único vão disponível.
 
Bisila de volta, busca sua poltrona. Pede licença a dois homens postados no corredor. Eles não a notam. São altos, brancos, olhos azuis. Conversam em voz alta, logo abaixo do aviso “Quiet Car”.
 
K. Skibicki passa por eles, e nada diz, em direção ao microfone. Olhos postos em Bisila, cobra:
- Por favor, há uma mala impedindo o trânsito entre os vagões e afetando a segurança de todos. Venha retirá-la!
 
Sob olhares que simulam desatenção, Bisila volta a atravessar o corredor. Ao fundo do vagão busca, sofregamente, encaixar a enorme mala em algum lugar.
 
K. Skibicki passa pelos homens altos, o menear da cabeça indica o desagrado; com Bisila e sua mala, não com os homens, que seguem na conversa. Em voz alta. Até que um passageiro, branco, louro, olhos azuis, se vira e ordena:
- Silêncio. Aqui não se pode falar assim.
 
Cabelos grisalhos, colete azul claro, um dos homens se agacha, apóia-se no joelho direito, encosta-se na poltrona do amigo e aos sussurros continua a conversa.

O poder azul...e branco. (Foto Bob Fernandes/Terra Magazine)

O poder azul...e branco.

K. Skibick irrompe ao microfone. Desolado:
- O trem do presidente Obama partiu à nossa frente e mais tarde vai fazer uma parada em Baltimore. Não sei quando vamos poder partir, por questões de segurança…
 
Bisila Bokoko devorou a Life-Obama. Ataca agora o New York Times.
 
Quatro e quarenta da tarde. Barack Obama discursa, em Baltimore. Cinco graus abaixo de zero e 40 mil seguidores. Abraham Lincoln, assassinado em meio ao mandato, em 1861 fez o mesmo percurso a caminho da posse.
 
Espalhados pelos 217 quilômetros, agentes secretos e policiais de 58 distintas forças e organizações protegem o trem de Obama. A Guarda Costeira vigia rios, congelados, e cursos d’água no percurso. Aviões privados não podem sobrevoar o trecho Nova York-Washington.
 
O trem 2207 chega à Union Station, Washington. Bisila Bokoko arrasta sua mala.
 
Ela é diretora executiva da Câmara de Comércio Espanha-Estados Unidos. Trabalha na suíte 26…..do Empire State Building. Vai a Washington, logo atrás do trem de Barack Obama, para assistir, viver a posse.
- Estou muito, muito contente… eu, o mundo todo torceu por isso. Agora temos a esperança de que as coisas vão mudar…
 
E K.Skibicki?
- …não tem importância… essas coisas são assim mesmo… vamos esperar que mudem.

Fim da linha...Ou o recomeço? (Foto Bob Fernandes/Terra Magazine)

Fim da linha...Ou o recomeço?

Blogs que citam este Post

17 de janeiro de 2009

Obama vende exclusividade de transmissão de eventos da posse por US$ 5 mi

Tags:, , , - possedeobama às 19:34

Antonio Prada
Direto de Washington (EUA)

Capitólio já pronto para a grande cerimônia de posse (Foto Divulgação)

Washington DC: Capitólio já pronto para a grande cerimônia de posse (Foto Divulgação)

O negócio é inimaginável na América Latina. Um presidente eleito vender os direitos exclusivos dos principais eventos da cerimônia de sua posse por US$ 5 mi. Nos Estados Unidos, no entanto, é apenas mais um negócio, que embora lícito, tem provocado polêmica pela voracidade com que os legionários de Obama levantam fundos para a grande festa de transmissão de poder.

O comitê de posse de Obama fechou acordo com três grandes redes norte-americanas de TV para transmitir alguns dos eventos mais importantes da cerimônia de posse, segundo informações publicadas neste sábado pelo jornal The Washington Post.

Por US$ 2,5 milhões, a  HBO adquiriu os direitos do megaconcerto deste domingo, no The Mall, de Washington, com a presença de Bono e seu U2, Bruce Springsteen, Beyoncé, entre outras estrelas. O sinal exclusivo estará disponível apenas para usuários que recebem o canal ou possuem recepção de TV digital.

Já a Walt Disney Co. pagou  US$ 2 milhões para colocar no ar nos seus canais Disney e ABC dois eventos premium. A Disney transmitirá na próxima segunda-feira um concerto dedicado as crianças, com a presença das futuras primeira-dama Michelle Obama e vice Jill Biden. A rede ABC, por sua vez, vai exibir a disputada festa da posse da cidade, o primeiro dos 10 eventos oficiais programados para 20 de janeiro. Terá acesso quase exclusivo, pois apenas um seleto grupo de jornalistas que regularmente cobre o dia a dia da presidência poderá entrar no local. A emissora vai inserir blocos comerciais na transmissão, o que evidencia que vai obter lucro sobre o evento.

Finalmente, a MTV, do grupo Viacom, desembolsou US$ 650 mil para transmitir, também na terça-feira, a Festa da Juventude, com a presença do próprio Obama.

Outras redes de TV e a mídia em geral, alijadas do fino cardápio de festividades, utilizam o argumento do caráter público do evento para gritar contra a exclusividade. Claro, preferiam um pool de imagens para compartilhar por todos e para todos.

A venda de direitos para a posse não é um privilégio de Obama. Outro Democrata, Bill Clinton, também licenciou direitos para a HBO e CBS durante sua posse em 1993. A maioria dos presidentes, no entanto, descartou essa prática.

A festa inclusiva e aberta prometida por Obama não tem custo geral divulgado. A porta-voz do comitê de posse, Linda Douglass, informou que apenas de infra-estrutura para as transmissões dos quatro eventos vendidos com exclusividade para as redes de TV serão gastos US$ 10 milhões.

O comitê de posse de Obama já arrecadou US$ 35 milhões. Não foram aceitas doações diretas de empresas, comitês políticos, estrangeiros e lobistas oficiais. Doações individuais foram limitadas em US$ 50 mil.

Blogs que citam este Post

Obama quer “rebutar” a Casa Branca e fundar a verdadeira América online

Tags:, , , - possedeobama às 8:59

Antonio Prada

Direto de Nova York (EUA)

V�deo de Obama
Obama tranquiliza: a posse será transmitida pela internet

Problemas não faltam a Barack Obama. Da profunda crise financeira ao conflito em Gaza, passando pela herança maldita do Iraque. Numa área, no entanto, o presidente eleito parece surfar de costas, o da tecnologia. Quando assumir a presidência na próxima terça-feira Obama promete “rebutar” a Casa Branca e criar uma verdadeira América online. Uma potente rede integrada e interativa que una o melhor do Google e o melhor da Amazon.com, experiências que representam a vanguarda das novas teias tecnológicas na visão dos conselheiros do novo governo. Uma missão difícil, mas não impossível.

Enquanto candidato e na fase de transição, Obama usou e tem abusado de recursos da Internet de segunda geração (Web 2.0). Além de criar sites de informação e enviar propaganda eleitoral via correio eletrônico, vem utilizando a rede para montar via participativa de interação com o eleitor, por meio de redes sociais, comunidades virtuais, blogs, videoblogs, listas de discussão e compartilhamento de diversos tipos de mídia, especialmente vídeos. Já é chamado de Franklin Roosevelt 2.0, uma comparação ao presidente que manuseou com rara eficiência a radiodifusão, nos anos 30.

Não há nenhuma novidade nessa estratégia. Guardadas as devidas proporções, a Internet e os celulares são o rádio deste início do século 21. O programa semanal de rádio de Roosevelt, ainda (isso mesmo) utilizado pelos presidentes Lula no Brasil e Chávez na Venezuela, são os vídeos quase diários de Obama postados no You Tube. Só que os videos são disseminados e multiplicados pelos próprios usuários, abrigam comentários e a um clique aparecem legendados em inglês, espanhol, francês etc. No velho modelo, que também inclui a televisão, muito bem utilizada por Kennedy no início da década de 60, há apenas uma via: o presidente fala para a população e a resposta vem através de pesquisas. No novo modelo, a comunicação é online, e em duas vias.

Obama deu e dá um show. Durante a campanha eleitoral os internautas assistiram a cerca de 15 milhões de horas de videos de campanha de Obama. Mais: o site do candidato (www.mybarackobama.com) coletou mais de 13 milhões de emails, mais de 1 milhão de números de celulares e meio bilhão de dólares de doações online. Mais ainda: Obama tem mais de 1 milhão de amigos no MySpace e mais de 3,7 milhões de “seguidores” na sua página oficial do Facebook – 700 mil a mais do que quando foi eleito em novembro.

Na fase de transição, que termina na próxima terça-feira, não tem sido diferente. O site www.change.gov tem criado uma poderosa ferramenta de informação e interação. Estão disponíveis mais de 500 arquivos PDF submetidos por terceiros com sugestões e comentários sobre os principais temas da agenda norte-americana. Estão lá, por exemplo, as propostas e discussões sobre o fim da guerra no Iraque, a revitalização da economia ou como proteger a América. Os internautas dão idéias e notas, priorizando temas. Entre os mais votados da seção Livro de Idéias do Cidadão figuram o fim da proibição da maconha, o incremento de linhas de trens entre as principais cidades norte-americanas e o compromisso de tornar o país o mais “verde” do mundo.

A cerimônia de posse vem embalada pela mesma volúpia 2.0. Vídeos são postados diariamente com informações e convocações para a mais inclusiva e aberta transmissão de cargo da história norte-americana. De membros da equipe de Obama, da futura primeira-dama, Michelle, e do próprio presidente eleito.

No video abaixo, postado no You Tube, Obama fala sobre a posse e avisa aos cidadãos que não puderem estar em Washington para não se preocuparem: tudo estará sendo transmitido também pela Internet.

O serviço de posse disponível no site (http://www.pic2009.org/) é amplo e interativo. Inclui alertas de celular com a previsão do tempo, condições do trânsito na cidade de Washington no dia da posse, itinerários de trens e ônibus e informações sobre eventos oficiais a atualizações em tempo real. Recruta voluntários para organizar e trabalhar em eventos, registra ainda online eventos que celebram a posse organizados por entidades e usuários. Uma grande base de dados que oferece todos os eventos que vão ocorrer no país no histórico dia.

Obama criou também redes sociais que já estão seguindo em tempo real tudo sobre o 20 de janeiro:

No Twitter: http://twitter.com/obamainaugural
No Flickr: http://www.flickr.com/photos/inauguration
No You Tube: http://www.youtube.com/inauguration

Se as previsões se concretizarem, a cerimônia poderá ser um dos eventos ao vivo mais vistos da história da Internet.

Já na Casa Branca, a partir de terça-feira, o presidente Obama terá um desafio acima de tudo constitucional e jurídico. Usar toda a revolução 2.0 de candidato e de presidente eleito para mudar a máquina pública e conectar e envolver o público com o governo vai requerer mudanças na arcaica legislação norte-americana. Naturalmente, ela já representa um duro obstáculo para ampliar e consolidar a grande rede social e interativa que Obama construiu até o momento.

Transformar o site http://www.whitehouse.gov/ por exemplo numa vigorosa ferramenta online tal qual ele fez até agora é impossível pela letra de lei, já que sites oficiais do governo não podem dar links para o You Tube ou outros sites comerciais. E nem permitem publicar conteúdo sob a licença Creative Commons. Tampouco podem liberar comentários e moderá-los com filtros, já que a Primeira Emenda da constituição não permite restrição de expressão do indivíduo.

A audaciosa meta de Obama é também redesenhar os serviços públicos e enquadrá-los em práticas online. Criar um governo eletrônico que otimize processos, reduza custos (imprescindível em tempos de crise) e facilite a vida do cidadão. A migração do governo norte-americano para o mundo digital é lenta, um contra-senso no país que detém as melhores tecnologias e práticas de internet e de mobilidade. Algumas mudanças dependerão de canetadas do próprio Obama. Outros dependerão de aprovação do Congresso, como instituir o voto eletrônico, algo que o Brasil tem muito a ensinar aos EUA.

Mais do que transformar sites governamentais em híbridos de Facebook e Wikipedia, Obama, quando erguer sua politica de ampla expressão digital, terá de se lembrar de como chegou lá, como bem frisou a última edição da revista “Wired”: fazer com que cidadãos sintam que fazem parte de uma solução e então permitir que eles falem uns com os outros e ajam. Vai exigir, portanto, muito mais do que um simples “rebutar”.

Blogs que citam este Post

16 de janeiro de 2009

Celebridades e festas transformam Washington em Hollywood na posse de Obama

Tags:, , , - possedeobama às 8:08

Antonio Prada
Direto de Nova York (EUA)

 

 

concerto para Obama

Bono Vox: concerto para Obama

 

Um desfile de celebridades de fazer inveja a tradicionais cerimônias como o Oscar, o Globo de Ouro ou aos principais festivais de música do mundo. Bono Vox e seu U2, Mariah Carey, Alicya Keys, Stevie Wonder, Jessica Alba, Oprah Winfrey, Spike Lee, Byonce, Shakira, Denzel Washington, Jamie Foxx, entre outros. Múltiplos eventos transmitidos simultaneamente pelas principais redes de TV e Internet. Milhares de telões espalhados por universidades, clubes, ruas e hotéis de todo o país. Vai começar a festa. E que festa. Washington se tornará Hollywood a partir deste sábado, com direito a glamour e frenesi jamais presenciados em posses de presidentes norte-americanos.

 

 

O elenco é estelar. Os diretores são renomados. Há os eventos oficiais, dos quais participam, em revezamento, Obama, o vice Biden e respectivas mulheres. Há os extra-oficiais e, claro, os undergrounds. Há os eventos gratuitos. E os muito bem pagos. Em qualquer situação, celebrar é a palavra de ordem. E celebrar em Washington na próxima semana significa apoiar politicamente o novo governo que toma posse no dia 20.

 

 

As cerimônias de posse sempre são acompanhadas de eventos tradicionais e pompa histórica. Depende, claro, do presidente eleito, das suas relações, de seus apoios.

 

 

Em tempos mais remotos artistas de renome emprestaram seu prestígio para pontuar inícios de novas eras de poder, em festas regadas a discursos, pequenos esquetes e até poesia. O ator Mickey Rooney atuou nas quatro posses de Franklyn Delano Roosevelt. O poeta Robert Frost leu um poema na posse John F. Kennedy em 1961.

 

 

As posses de Bill Clinton, em 1993 e 1997, já imprimiram um tom mais pop e foram precedidas por dois dias de concertos gratuitos no the Mall, em frente ao capitólio, dos quais participaram Hootie and the Blowfish e Sheryl Crow. Em 1997, na Festa Presidencial, na USAir Arena, participaram Stevie Wonder, Kenny Rogers, Yo-Yo Ma além dos elencos da Broadway de “Chicago” and “Bring in ‘da Noise, Bring in ‘da Funk.”

 

 

Na era Bush, menos glamour, e mais tradição, inclusive do Texas. Na de 2001, tocaram na festa oficial as orquestras de Tommy Dorsey e Guy Lombardo, e estrelas da música country, como Clint Black, Lyle Lovett e Nell Carter. A mais contemporânea atração da posse de Bush foi Rick Martin. Anos depois de dançar com o presidente eleito em frente ao Lincoln Memorial, o cantor voltou atrás e levantou o dedo médio enquanto pronunciava o nome de Bush em um concerto.

 

A era Obama resgata a modernidade, mobiliza artistas e personalidades engajadas em causas sociais, ambientais e raciais, e levanta a bandeira de mudança. Ao menos na primeira semana, mesmo em meio a profunda crise financeira que assola os Estados Unidos, a festa vai rolar.

 

 

Confira a agenda de eventos e a lista de celebridades que estarão na posse de Obama:

 

 

O GRANDE SHOW

 

 _ Domingo, dia 18 – Concerto gratuito no National Mall, a partir das 2h30. Participam: Bruce Springsteen, U2, Beyonce, Usher, Garth Brooks, Stevie Wonder, John Mellencamp, Shakira, Mary J. Blige, Herbie Hancock, Josh Groban, John Legend e James Taylor. Denzel Washington, Jamie Foxx, Martin Luther King III, Queen Latifah apresentam o evento. Obama aparecerá na festa, que terá exibição ao vivo nos EUA pela HBO.

 

 

OPRAH WINFREY

 

_ Segunda-feira, dia 19 – Winfrey comandará o programa “The Oprah Winfrey Show”, direto do Kennedy Center Opera House. O programa também será transmitido de Washington na quarta-feira, dia 21.

 

 

 

 

SPIKE LEE

 

 

 

_ Segunda-feira, dia 19 – O cineasta Spike Lee participa de um seminário na Universidade de Howard, onde discute “O Impacto de Obama na América Negra”. Lee oferecerá ainda uma festa na terça, dia 20.

 

 

 

OUTROS CONCERTOS

 

 

_ Sábado, dia 17 – BET Honors. No Warner Theater. Em homenagem a Mary J. Blige, filmmaker Tyler Perry, Ervin “Magic” Johnson e outros. Apresentação de Gabrielle Union. Com Queen Latifa, Ne-Yo, Anita Baker e Joss Stone.

 

 

_ Sábado, dia 17 – The Hip-hop Caucus. Na Ibiza. Com Common, Mary J. Blige e Nelly.

 

 

_ Domingo, dia 18 – Jessica Alba apresenta a festa “Um novo nascimento da cidadania”. Com Maroon 5 e DJ Samantha Ronson.

 

 

_ Segunda, dia 19 – Festa das Crianças: “Nós Somos o Futuro”. No Verizon Center, com transmissão ao vivo nos EUA pelo Disney Channel. Com Miley Cyrus, the Jonas Brothers e Bow Wow. Michelle Obama e Jill Biden participam do evento com os filhos.

 

 

_ Segunda, dia 19 – Festa “A América Está Legal de Novo”. Com Beastie Boys, Sheryl Crow e Citizen Cope. No 9:30 club.

 

 

_ Segunda, dia 19 – Jay-Z apresenta o concerto “Véspera da Mudança”. No Warner Theater.

 

 

 

FESTAS OFICIAIS

 

 

_ Terça-feira, dia 20 – The Neighborhood Ball: concerto com Mariah Carey, Jay-Z, Beyonce, Alicia Keys, Faith Hill e Mary J. Blige. TV ABC transmitirá a festa para Washington, direto do Washington Convention Center.

 

 

_ Terça-feira, dia 20 – The Youth Ball: Festa que será transmitida ao vivo pela MTV. Fall Out Boy e Jonas Brothers estão entre as atrações.

 

 

_ Terça-feira, dia 20 –Washington terá ainda mais 8 festas oficiais: Home States Ball, Commander in Chief Ball, Biden Home State Ball, Mid-Atlantic Ball, Western e Southern Regional Ball, Midwest Regional Ball, New England Ball e Southern Regional Ball.

 

 

FESTAS NÃO OFICIAIS

 

 

_ Domingo, dia 19 – Festa Sonhos de Meu Pai, no Hotel Four Seasons. Com Alicia Keys, Macy Gray and LL Cool J.

 

 

_ Domingo, dia 19 – Festa da Posse do Voto Latino. Com Marc Antony, Rosario Dawson, Tony Plana e Wilmer Valderrama.

 

 

_ Segunda, dia 19 – Festa Hip-Hop. No Harman Center. Com Russell Simmons, LL Cool J, T.I. e Young Jeezy

 

 

_ Segunda, dia 19 – Festa The Huffington Post. No Newseum. Com Sting, will.i.am, Tom Hanks, Steven Spielberg, Denzel Washington, Shakira, Jon Bon Jovi, Halle Berry e Ashton Kutcher.

 

 

_ Segunda, dia 19 – Festa Verde. Na Portrait Gallery. Organizada por Al Gore.

 

 

_ Terça-feira, dia 20 – Festa com Elvis Costello e Sting. No Harman Center. Participam ainda Anne Hathaway, Spike Lee, Tim Robbins, Maggie Gyllenhaal, entre outros.

 

 

_ Terça-feira, dia 20 – Festa Roxa. No Fairmont Hotel, organizada por Lou Gossett Jr., com apresentação de Il Divo. Convidados: Ashley Judd, Patricia Arquette, John Cusack, Tim Robbins, Ed Harris, Ashley Judd, Josh Lucas, Amy Brenneman, Brendan Fraser, Susan Sarandon e Lisa Marie Presley.

 

 

 

_ Terça-feira, dia 20 – Festas da Música Americana: The Legends Ball, organizada por Dionne Warwick e com Chaka Khan e George Clinton. No Marriot Wardman Park Hotel.

 

Blogs que citam este Post

15 de janeiro de 2009

Sob neve, NY espera Obama com a queda de símbolos e ameaças de suicídios

Tags:, , , - possedeobama às 12:58

Sede do Citigroup em NY

Bob Fernandes
Direto de Nova York (EUA)
 
 Os termômetros marcam 8 abaixo de zero, a neve desce sobre a cidade, o vento cortante do inverno arranca os humanos das ruas. Nas bancas, nas capas de jornais e revistas, um rosto se multiplica: Barack Obama, o presidente dos Estados Unidos que toma posse na terça 20 de janeiro. Obama busca manter acesa a chama da esperança. Ele está nas bancas, nas televisões, cada usuário de computador que o desejar recebe suas mensagens diretas, olho no olho, no sábado partirá de trem da Filadélfia para a capital (leia aqui), vai incendiar corações e mentes das multidões pelo caminho, mas ainda ecoa a pergunta de Jamil Moussa:
- … vocês acham que o Obama vai nos salvar?
 
Jamil, um dos 50 motoristas brasileiros da Sonictours Vans& Limo Express.
 
No dia em que Jamil pergunta, mais um símbolo americano dobra os joelhos em Nova York. A Macy’s Inc vai fechar 6 das suas lojas de departamento na região metropolitana, 14 por todo o país.
 
Para fechar algumas de suas portas a Macy’s terá que torrar US$ 65 milhões; direitos trabalhistas, dívidas etcetera. Meyron E. Ullman III, o C.E.O da Macy’s, deixa o comando no final do mês.
 
A cidade que sobreviveu ao 11 de Setembro e renasceu, neste inverno de 2009 vê e vive a queda de símbolos do capitalismo norte-americano.
 
Jamil Moussa toma a Quennsborough Bridge, também conhecida como a ponte da 59. Às costas, em Long Island City, Queens, o imponente prédio de empresas do Citibank. À frente e à esquerda, já em Manhattan, a majestosa imagem do prédio do Citi na Lexington, entre 53 e 54. Jamil pragueja contra Bush e lamenta:

-…meu Deus, quem diria, até o Citi quebrou…
 
Citibank, de sede erguida no final dos anos 70, início dos 80, tempos da largada para o financismo sem freios com Ronald Reagan e o yuppismo. Com seu desenho de telhado partido ao meio, queda em declive, o topo do prédio arquitetado pela Emery Roth e Filhos soa agora como o epitáfio de uma Era.
 
Despojos repartidos em 4 partes, é o destino do Citi.
 
Lamentos, lamúrias, perplexidade nas mesas dos cafés. Dos cafés que sobrevivem. Starbucks? Já há meses se espalha o fechamento de 600 casas, em Nova York e por todo o país.
 
E Nova York nem está tão mal, a se levar em conta outras paragens nos Estados Unidos. É o 26º Estado no ranking do desemprego. Dos 50 estados – mais o Distrito Federal -, 13 tem um déficit financeiro de US$ 23 bilhões para o ano fiscal que se encerra em junho.
 
Nova York e seu cinturão, Nova Jersey e Pensilvânia, têm juntas um buraco próximo dos US$ 10 bilhões; o fosso da Califórnia está estimado entre US$ 9,8 e US$ 14 bilhões.
 
Cenário de 31 de dezembro último, quando o PIB conhecido ainda é o de 2007 – US$ 13,8 trilhões – e dívida interna pública chega a 60%: per capita a dívida é de US$ 37.316,00.
 
Tempos duros. Tudo pode ser verdade, creem as multidões.  Daily Kos é um site liberal. Nele, um certo Jerome Manis anuncia seu livro: “América, 100 milhões de vítimas”.
 
No anúncio, Jerome Manis amontoa:
-…100 milhões largaram as escolas, 58 milhões têm distúrbios mentais, 47 milhões não têm seguro-saúde, 37 milhões moram em situação de pobreza…
 
The Huffington Post, site-blog de grande audiência, informa: Queda também na Broadway.
 
Nove espetáculos vão baixar as cortinas antes da hora. Mesmo com preços mais baixos, outros 4 shows saem de cena nos próximos dias.
 
Obama acena com a esperança, mas a vida, dura vida, segue.
 
Os Samaritanos de Nova York detectaram um aumento de 16% nas chamadas para o serviço de prevenção ao suicídio. Em Miami, só nesse ano, mais de 500 ligações; basicamente dos que perderam suas casas no lamaçal do sub-prime.
 
Na cidade-símbolo do prazer aos olhos de boa parte do mundo, imagina-se que pelo menos um dos seus serviços ainda está rijo, de prontidão. Nem tanto assim, informam representantes da mais antiga profissão do mundo.
 
Os relatos são de garotas que faturam US$ 1 mil por noite, pelo menos. Elas, estranhamente, dizem seguir a faturar. Mas informam que a posição mudou.
 
Boa porção de clientes com muito dinheiro não está mais à procura de sexo. Eles querem palavras de apoio, conforto, elevar a moral, escapar da depressão.
 
E assim muitas moças de Nova York estão mudando de profissão. Apresentam-se como terapeutas corporais, mestras de Yoga, discípulas de Buda…

Dez da manhã da quinta-feira 15 de janeiro de 2009. Nas rádios, internet, nas bancas, segue o bombardeio de informações sobre a posse de Barack Obama. No noticiário da TV, o hino nacional ao fundo:
 
-…Deus Salve a América.

Blogs que citam este Post

Obama ignora alertas e seguirá de trem para Washington

Tags:, , , - possedeobama às 7:51

Antonio Prada
Direto de Nova York (EUA)

Três estações de trem e milhares de pessoas celebrando ao longo da ferrovia e cidades históricas norte-americanas. Essas cenas separam o presidente eleito Barack Obama de sua chegada a Washington, onde ocorrerá a posse na próxima terça-feira. Seguindo uma tradição de outros presidentes americanos, Obama, o vice-presidente eleito Joe Biden  e respectivas famílias farão no próximo sábado uma viagem de trem rumo à capital federal.  Uma viagem polêmica, diga-se de passagem. Considerada a mais aberta e acessível da história das posses, até em virtude dos tempos bicudos de terrorismo, o trajeto terá 221 km, nos quais o público terá a oportunidade de ver o trem e seus ilustres passageiros. Não à toa o evento vem cercado de receios do Serviço Secreto dos EUA.

O trajeto, confirmado na noite desta quarta-feira, começa na manhã de sábado pela Filadélfia, passa por Wilmington (Delaware) e Baltimore (Maryland), antes de chegar a Washington, no final da tarde. Em todas as cidades estão previstas cerimônias e festas populares.

O Comitê de Posse Presidencial não informou em quais pontos do trajeto haverá oportunidade de encontro com o presidente Obama. Os especialistas em segurança afirmam que o trajeto de trem ameaça tanto os Vips a bordo como os incontáveis prédios e galpões ao longo da rota. Além disso, há uma série de  pontos vulneráveis não tradicionais, como pontes e túneis que podem ser sabotados.

Dois grupos ambientais, de acordo com a rede CNN, alertaram os organizadores do evento dos riscos que o trajeto proporciona, já que há uma série indústrias químicas na rota. Segundo o Greenpeace e o Friends of The Earth, a cartilha de ação da Al-Qaeda traz claramente o uso dessa infra-estrutura já existente como método de ataque.

Carta enviada pelas entidades ao Serviço Secreto revela a preocupação de que os esforços de segurança focados na caravana de Obama podem deixar de lado a comunidade da rota, a qual pode sofrer sérias conseqüências

O Serviço Secreto, por sua vez, através do porta-voz Eric Zahren, disse que está trabalhando junto com o governo, estado e municípios para manter a segurança de todos. A segurança será feita por terra, água e ar e incluirá detectores radioativos, químicos e biológicos ao longo da rota.

O trajeto do trem (uma unidade normal, sem blindagem, segundo informações extra-oficiais) respeita uma tradição fincada na Declaração de Independência, realizada na Filadélfia, e imortalizada no Hino Nacional, em Baltimore. Os eventos pagam um tributo à história do país e são desenhados para garantir que um maior número de pessoas possa participar do processo de posse do novo presidente. Pegam carona no trem, inclusive, como convidados, grupos de diferentes estados e classes sociais, uma tentativa de transformar a simbólica viagem na mais completa tradução da diversidade norte-americana.

Blogs que citam este Post

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol